segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O ciume

Olhos ausentes, sorriso triste.
Sentimentos procurando outros fora daqui.
Dez tostões por esses pensamentos
Uma fortuna para não saber.
Fico com a dúvida
Assim não sofro tanto.

Amores, muitos

Encarnasses tu mil mulheres e seria
eternamente apaixonado por ti.


De um militante do P.A.I.G.C. poeta já falecido
Concordo contigo

Num dia em que caíram linguados do céu

Sentado numa cadeira de praia, comodamente instalado, mirando um horizonte azul que se perdia longe, quase tocando o fim do Mundo, Jorge esperava sem pressa, molhando os lábios num copo de vinho branco, saboreando cada gole, como se o tempo tivesse parado só para si.

Dias assim deveriam ser eternos, junto de quem se quer muito, pensava, molhando o corpo em água, parecendo importada de um qualquer clima tropical.

Um sol que queima devagar, quase pedindo licença para poder tocar os corpos, deixando-os dourados, num final de um dia mágico.

Olhando o céu com um azul, que só um rio como o seu podia rivalizar, observava uma luta violenta, trágica, de duas gaivotas, reclamando um linguado aterrorizado, antevendo um final de vida sem glória.

Jorge decide intervir.

Um grito forte assusta-as, o peixe cai junto aos seus pés. Pega nele como um Pai segura um filho pequeno.

Leva-o para a água lavando-o, e, proferindo palavras de encorajamento, deixa-o partir para uma vida que segundos antes parecia não ter futuro.

É assim o Jorge, coração bom, amigo dos animais.

O linguado não o vai esquecer. Talvez até, um dia, queira por ele ser saboreado.
E pode Jorge voltar a casa feliz por ter salvo uma vida mais.


Para o meu amigo Jorge Português que não quis assumir que o linguado deste conto acabou frito e devorado pela sua companheira Lúcia.

sábado, 24 de julho de 2010

PÁTEO DA MISERICÓRDIA




CAPÍTULO UM

ESCOLA DO BAIRRO SALGADO



Alguma preparação feita numa creche, agora infantário, que a minha mãe conseguiu, estou certo, argumentando como só ela sabia.

Um primeiro ano com algumas recordações, más, de um professor que, sem esforço, poderia ser substituído por um qualquer gorila com passagem por um zoológico.

Um ano a marcar passo.

Segundo ano, outro professor, que haveria de acompanhar-me até ao quarto. Um homem com uma aparência física, temo, lhe tenha amargurado a vida.

Frustração que a violência sobre os alunos, agora sei, o aliviava da dor albergada na corcunda, transportada todos os dias à hora certa para a Escola, num corpo apressado.

Um terror que um qualquer dia obrigado a ouvir Freiras por vezes fazia esquecer.

Livros, lápis, cadernos. Uma miragem só vislumbrada em mãos afortunadas, sem culpa de um País, tratando mal quem não o fez por merecer,

Havia, claro o ansiado intervalo de quinze minutos.

As mães, no pátio da Escola em número bastante, alimentando os filhos, criavam em mim, a ilusão de estar à sombra de árvores então existentes na praia de Albarquel num dia de verão.

Toda a gente comendo, sentada à sombra, fugindo ao calor. E eu imaginando, pés dentro de água, na mão um pão, com sorte escondendo alguma coisa dentro, e sonhando com um gelado no final do dia, que não me lembro de ter alguma vez saboreado.

Corrida louca para casa acompanhado, por amigos mais sortudos, em direcção a uma cozinha, que quando muito me oferecia a possibilidade, de com alguma sorte meter os dedos num pacote de margarina Vaqueiro meio vazio, lambê-los e correr.

Correr muito para chegar à Escola antes de toda a gente saciada entrar. Acreditando no dia seguinte ser diferente.

Não era. Igual em tudo a todos os outros quase adivinhando os pensamentos da minha mãe "cresce filho a mãe precisa de todos para ajudar com algum dinheiro em casa".

E eu queria crescer. Ser miúdo assim não era bom, sabia-o, ainda que estivesse longe de ter essa consciência.

Sabia que o tempo de passar a ver atrás de um balcão de mercearia os meus amigos jogar futebol, fazer coisas de putos, ia chegar.

Escola de manhã, trabalho à tarde.

Quarta classe, último ano, por fim.

Os namoros, primeiros amores, desamores, estão a chegar.

Depois conto noutro capítulo.

(dedicado meus amigos que comigo partilharam estas e outras dificuldades)








segunda-feira, 17 de maio de 2010

VIDAS

Ofertados para a vida, por pais que sonharam entregar-nos chaves de um qualquer céu, damos connosco pontapeando obstáculos, entremeados de felicidades que de tão fugazes quase temos medo de vivê-las.

Vamos andando fazendo amigos, engordando laços familiares, desconfiando que um dia partirão, não os podendo segurar como se agarra um filho num colo apertado.

Caminhamos direitos, convictos de razões gritadas a ouvidos entupidos, indiferentes, alheados, surdos para aquilo em que acreditamos.

Amparamos amores, retardando o dia inevitável de fazer das paixões momentos suportados, lembranças sem regresso.

E, chegados a uma idade depois de ter deixado para trás outras duas, fazemos o balanço de uma vida, que por certo não foi sonhada por pais querendo para os filhos o que só deuses, se existissem, nos dariam.

E, chegados ao fim terá valido a pena.
O Mundo terá dado um salto mais.

(Para a tia Amélia com um beijo de filho desnaturado)

segunda-feira, 22 de março de 2010

A UMA AMANTE DE DIAS CHUVOSOS


Pudesse eu dominar a Natureza
E garanto, ofertava-te uma nuvem.

Negra, grande e pendurava-a
na tua janela, para a veres
chorar todos os dias.




PÁTEO DA MISERICÓRDIA

Ano de 58, final de Verão.
Hora do dia já perdida, na arca dos pensamentos guardados de uma Mãe que já não recorda.
Esquecimento alargado a outros muitos filhos nascidos, desafiando qualquer cabeça a um esforço de memória, que nenhum batalhão de neurónios poderia suportar.
Vista a luz do dia, juntei-me a outros três, esperando a vinda mais tarde de um trio ,que fazia concertos tocados com os instrumentos que tinham à mão, pedindo aquilo que sabíamos, por vezes não existir. Alguma coisa para comer.
Feita a aparição do menino, parecido com a Mãe afiançam, as dores de cabeça da família aumentam tanto, que todos os analgésicos existentes na altura não foram bastantes.
Começa então uma vida.
Sentado num colo feito restaurante, estórias e mais amores, que só uma Mãe como aquela sabia oferecer.
Pai, mais ausente que outra coisa, provocando todo o tipo de desejos não conseguidos.
Fome de presenças, toques, carícias, de tudo aquilo que todos, ou quase, têm de pais presentes.
É deste puto, suportando dores de marcas passadas junto de gente, que com persistência se vai mantendo por perto, como que amparando todas as quedas, que todos os putos assim, inevitavelmente dão.
É dele que quero falar.

Este é o primeiro texto de mais alguns capítulos, que se mais ninguém quiser ler, cá estarei eu fazendo-o, recordando as infâncias que também tem coisas bonitas, muitas.
Vão aparecer por aqui, prometo.